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Não em meu nome

Por ocasião dos dois anos da invasão do Iraque, em todas as partes do mundo, ocorrem manifestações contra esta injusta guerra.
Repete-se em 2005 a mesma força da opinião pública de 15 de fevereiro de 2003 quando, num fenômeno jamais visto, milhões, em todo o mundo, foram às ruas para manifestar seu descrédito na guerra como solução ao conflito.
A ocupação no Iraque teve custos desastrosos.
Em primeiro lugar, um número expressivo de civis foram mortos, algumas fontes afirmando mesmo a cifra de cem mil.
Cidades importantes, como Fallujah foram arrasadas, provocando dezenas de milhares de refugiados.
Casos de tortura e desrespeito aos direitos humanos, como os de há muito não se via, vieram à tona.
As próprias tropas de ocupação estão sendo mortas e feridas num número que não pára de crescer: a “guerra higiênica” da primeira invasão do Iraque está muito distante.
 As razões alegadas para a guerra revelaram-se infundadas: jamais se confirmou a existência das armas de destruição em massa.
As pretensões de que a guerra traria paz e prosperidade ao povo iraquiano e de que este estava plenamente favorável à ocupação revelaram-se totalmente falsas.
Não só o Iraque continua sofrendo escassez de alimento, água, petróleo e eletricidade, como antes da guerra, mas também pesquisas de opinião mostram que os iraquianos desejam o fim da ocupação.
As tropas de ocupação estão matando inocentes e, como no Vietnã, os Estados Unidos não conseguem vencer.
A questão central é até quando continuará esta matança.
A guerra no Iraque não é, como muitos poderiam pensar, um problema apenas dos iraquianos e dos norte-americanos e, portanto, restrito a uma geopolítica bilateral.
Trata-se, basicamente, de um modelo de ordem internacional que, ao mesmo tempo, contraria as determinações da ONU e a desrespeita, uma vez que foi iniciada à sua revelia.
Opor-se a esta guerra, de todas as formas, revela-se como um imperativo ético e uma manifestação de cidadania mundial.
Nossa responsabilidade perante a história e perante a própria humanidade leva-nos a perceber o poder que temos, coletivamente, de mudar o futuro do mundo.
Em outros contextos, Gandhi, a grande alma da paz do século XX,  lembrava que o poder do império britânico na Índia foi devido, mais do que a capacidade de domínio dos ingleses, à capacidade de resignação dos indianos.
Ele, certa vez, afirmou frente ao representante do Império Britânico na Índia: “Não são tanto as espingardas britânicas como a nossa cooperação que são responsáveis pela nossa sujeição... O governo não tem nenhum poder fora da cooperação voluntária ou forçada do povo... Aquilo que está em causa é, por conseguinte, opor a nossa vontade à do governo, ou por outras palavras, retirar-lhe a nossa cooperação. Se nos mostrarmos firmes na nossa intenção, o governo será forçado a vergar-se à nossa vontade ou desaparecer”.
De forma semelhante, em nossa atual situação, os arranjos internacionais são conservados ou não de acordo com a sustentação que os cidadãos e cidadãs do mundo lhe dão.
E o mundo não pode assistir indiferente o drama do Iraque. 
Muitos põem em dúvida a eficácia das manifestações públicas contra a ocupação, pensando que elas não têm repercussão ou conseqüência imediata.
Mas o que está em jogo é exatamente a legitimação da guerra.
Esta injusta guerra, talvez, continuará por algum tempo.
Porém, não em meu nome!

                                           Autor: Prof. Dr. Marcelo Rezende Guimarães*

Pe. Marcelo Rezende Guimarães é Doutor em educação, professor da PUCRS, coordenador da ONG EDUCADORES PARA A PAZ e padre.

 
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